O Número zero da revista Saber

 

No iní­cio de 1997, fui con­vi­dado para pôr de pé uma revista dedi­cada a temas madei­ren­ses. A ideia, que sem­pre esteve na minha cabeça, foi dar corpo a um pro­jecto que, na sequên­cia das minhas expe­ri­ên­cias jor­na­lís­ti­cas em Lis­boa, nome­a­da­mente com as revis­tas Sábado, de Joa­quim Letria, e Visão, Cáce­res Mon­teiro, José Car­los Vas­con­ce­los, e outros, trou­xesse, com regu­la­ri­dade, para as ban­cas dos jor­nais, as temá­ti­cas regi­o­nais madei­ren­ses de uma forma livre e des­com­ple­xada.
Tendo em conta a rea­li­dade regi­o­nal e os seus con­di­ci­o­na­lis­mos, a opção foi pela pro­du­ção de um pro­duto men­sal, tipo news­ma­ga­zine, com uma equipa pequena, mul­ti­dis­ci­pli­nar  que fosse capaz de, após um mês de tra­ba­lho, dar aos madei­ren­ses um retrato sobre a vida social, polí­tica eco­nó­mica a Região, em que a única pre­o­cu­pa­ção fosse o seu com­pro­misso com os lei­to­res.
Seguindo as boas prá­ti­cas, e depois de cons­ti­tuída uma micro equipa de tra­ba­lho, come­ça­mos a tra­ba­lhar e tendo como objec­tivo pre­pa­rar um número zero que desse ao público uma ima­gem apro­xi­mada do que pre­ten­día­mos fazer.
Desta forma, em Abril de 2007, o número zero da Saber estava pronto para ser mos­trado a um público reser­vado, aos poten­ci­ais anun­ci­an­tes, numa tarefa que visava não só tes­tar a capa­ci­dade de pre­o­cu­pa­ção da equipa res­pon­sá­vel como de limar ares­tas e des­bra­var os cami­nhos para o futuro.
O ponto da situ­a­ção, na altura, pode ser sin­te­ti­zado na rubrica “Bilhete Pos­tal” que então escrevi, e que trans­crevo na íntegra:

Ven­cer o estigma

Nas últi­mas déca­das, as várias ten­ta­ti­vas ensai­a­das em pro­jec­tos de imprensa na Madeira ficaram-se pelo cami­nho. Ao apresentamo-nos hoje ao grande público temos cons­ci­ên­cia plena desse estigma. Sabe­mos que o can­ti­nho não é fácil, que mui­tos esco­lhos nos espe­ram e que só a deter­mi­na­ção em avançar
com um pro­jecto sólido conseguiremos.
Como sali­enta 0 nosso esta­tuto edi­to­rial, não esta­mos pre­sos a com­pro­mis­sos polí­ti­cos, eco­nó­mi­cos ou reli­gi­o­sos. Ape­nas nos move 0 direito con­sa­grado na Cons­ti­tui­ção de infor­mar. Infor­mar com rigor e isen­ção, se pas­sí­vel até à exaus­tão, na cer­teza de que esse é 0 único cami­nho que tere­mos de seguir para con­quis­tar­mos a con­fi­ança do público, e, assim, garan­tir­mos 0 futuro desta publi­ca­ção que, de uma forma res­pon­sá­vel, se afirme pela posi­tiva num mundo onde a comu­ni­ca­ção social é, mui­tas vezes par culpa pró­pria, inter­pre­tada como obs­tá­culo ao desenvolvimento.
SABER cor­res­ponde ao desejo sen­tido de dotar a Região de um órgão de imprensa que, não con­di­ci­o­nado por ques­tões de agenda diá­ria, tenha a luci­dez sufi­ci­ente para deba­ter os assun­tos que a todos nos pre­o­cu­pam, vei­cu­lando uma infor­ma­ção tra­tada apro­fun­da­da­mente onde nin­guém seja esque­cido.
Rei­vin­di­ca­mos o direito de tra­tar todo e qual­quer assunto, des­com­ple­xa­da­mente. Comprometemo-nos a fazê-lo com rigor e isen­ção.
Num mundo cada vez mais glo­ba­li­zado, a infor­ma­ção que pre­ten­de­mos dar não se pode limi­tar às linhas que nos sepa­ram do oce­ano. Com as natu­rais limi­ta­ções de uma publi­ca­ção que dá os pri­mei­ros pas­sos, pro­cu­ra­mos ofe­re­cer aos lei­to­res uma abran­gên­cia tão grande quanto pos­sí­vel de temá­ti­cas que dêem a cada página uma per­so­na­li­dade pró­pria. É den­tro deste espí­rito que esta­be­le­ce­mos um acordo de per­muta de infor­ma­ção com a Revista For­tuna. Este acordo é para nós uma mais valia impor­tante, não só pela qua­li­dade daquela revista, mas tam­bém por ser uma prova inequí­voca de con­fi­ança no pro­jecto que agora se inicia.

O futuro começa hoje.

Esta­vam lan­ça­dos os dados. Infe­liz­mente, ao fim de dois anos e alguns meses, cir­cuns­tân­cias várias levaram-me a aban­do­nar o pro­jecto jor­na­lís­tico mais impor­tante em que alguma vez estive envol­vido. Uma his­tó­ria que, tal­vez um dia, me ape­teça con­tar, e, dessa forma repor a ver­dade.
Inde­pen­den­te­mente disso, o que é certo é que o pro­jecto ficou. Des­vir­tu­ado, é certo, não tendo nada a ver com a sua ideia matriz, mas man­tendo no essen­cial a estru­tura base com que um dia sonhei para uma news­ma­ga­zine madei­rense de grande infor­ma­ção.
Claro que, se fosse hoje, pro­va­vel­mente tudo seria dife­rente. Com cer­teza seria dife­rente. Com cer­teza esta­ria diferente.

Para a capa desse número zero, esco­lhe­mos a figura de Gabriel Dru­mond. Um per­fil e uma entre­vista deram corpo ao tra­ba­lho que tinha como pre­o­cu­pa­ção colo­car a revista no cen­tro do debate e de uma ques­tão que con­ti­nua a ser actual. A auto­no­mia e os seus auto­res e actores.

SABER, número Zero

O Guer­ri­lheiro da Autonomia

BILHETE POSTAL

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SEDUÇÃO FATAL

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